Design
Nova marca da McLaren revisita suas origens
A nova identidade visual da McLaren resgata sua história e mostra como o design acompanha a expansão da marca.
A nova identidade visual da McLaren resgata sua história e mostra como o design acompanha a expansão da marca.
Sempre achei muito fácil criticar um rebranding ou o redesenho de um logotipo. Isso porque o motivo é simples: quando você está de fora, não tem envolvimento emocional com a marca, solicitações do cliente e nem compromisso com uma história. É isso que podemos ver no novo logo da McLaren.
Existe uma tendência curiosa no branding contemporâneo que, quanto mais as empresas precisam se preparar para o futuro, mais parecem interessadas em entender de onde vieram. Confesso que fiz isso com o Com limão nestes 20 anos e acho que é algo comum na nossa trajetória humana. No caso da McLaren, essa relação entre passado e futuro acaba de ganhar uma representação bastante literal.
A fabricante britânica apresentou uma evolução de sua identidade visual que passa a conectar, sob uma mesma linguagem, McLaren Automotive e McLaren Racing. Mais do que redesenhar alguns elementos gráficos, o projeto mergulha nos mais de 60 anos de história da marca para recuperar símbolos que ajudam a explicar quem foi Bruce McLaren e, principalmente, o que a empresa pretende representar daqui para frente.
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No centro desta mudança está um novo logotipo. E sua principal referência não surgiu de uma tendência gráfica, de um algoritmo ou de uma busca por parecer mais tecnológica. A inspiração veio de uma antiga placa instalada sobre o posto de serviços administrado por Les e Ruth McLaren, pais de Bruce, em Remuera, Auckland, na Nova Zelândia.

Foi naquele espaço que um jovem Bruce McLaren começou a construir sua relação com os automóveis e preparou o carro que o levaria à sua primeira vitória em uma competição. Décadas depois, aquela pequena oficina familiar volta para a história da companhia transformada em um dos principais elementos de sua identidade global.
O movimento poderia facilmente ser interpretado como mais um exercício de nostalgia. Mas a McLaren parece seguir por um caminho mais interessante… em vez de simplesmente reproduzir elementos gráficos de outras décadas, utiliza seu próprio arquivo como matéria-prima para construir uma identidade capaz de acompanhar aquilo que a empresa pretende se tornar.
O processo, inclusive, começou justamente pelos arquivos compartilhados da McLaren Racing e da McLaren Automotive. As equipes revisitaram símbolos, histórias e detalhes de design que acompanharam a marca desde os primeiros anos de Bruce McLaren na Nova Zelândia até sua transformação em uma companhia global. Não se tratava apenas de descobrir como a McLaren parecia no passado, mas de identificar quais códigos continuavam capazes de representar a empresa no presente.


É uma diferença importante. Nostalgia tenta reproduzir uma sensação conhecida. Patrimônio de marca utiliza a memória como um ativo para construir novos significados.
É o início de um novo capítulo para a McLaren
David Woodhouse, Chief Creative Officer da McLaren Automotive
David Woodhouse, Chief Creative Officer da McLaren Automotive, define essa transformação como parte de uma trajetória maior da companhia. Para ele, a empresa nunca esteve confortável em simplesmente seguir caminhos estabelecidos e essa inquietação deveria estar presente também na identidade visual.
Essa lógica ajuda a explicar por que o projeto não abandona os códigos reconhecidos da marca. O Speedmark continua presente como um de seus símbolos centrais. O Papaya permanece como uma cor fundamental, especialmente por sua relação histórica com as pistas, mas passa a conviver com uma paleta mais ampla, construída a partir de momentos importantes da trajetória da McLaren. O Speedy Kiwi (imagem abaixo) também permanece no sistema, preservando a conexão com as raízes neozelandesas de Bruce McLaren.

Em vez de substituir uma identidade por outra, portanto, o projeto reorganiza esse patrimônio. O resultado é menos uma volta ao passado e mais uma tentativa de criar continuidade.
Louise McEwen, Chief Marketing Officer da McLaren Racing, resume essa intenção ao dizer que a nova identidade “conecta perfeitamente esse orgulhoso legado à nossa ambição futura”. Para ela, apesar de tudo o que mudou ao longo das décadas, boa parte da visão e do espírito original de Bruce ainda permanece presente dentro da empresa.
Talvez seja justamente aí que esteja um dos aspectos mais interessantes do projeto.
A McLaren não tenta encontrar um único símbolo capaz de representar tudo. Em vez disso, organiza um repertório formado pelo logotipo, Speedmark, Papaya, Speedy Kiwi e outros elementos derivados de sua própria história. Separadamente, eles contam pedaços diferentes da companhia. Juntos, começam a formar uma linguagem.
Essa abordagem faz sentido em um cenário no qual uma marca como a McLaren já não existe apenas sobre a carroceria de um automóvel ou na asa de um Fórmula 1.
A própria companhia diz que a nova identidade foi pensada para suportar uma expressão mais ampla do que significa possuir, acompanhar ou fazer parte do universo McLaren. Isso envolve produtos, mas também níveis maiores de personalização, experiências e um senso de comunidade mais forte ao redor da marca.
Essa expansão muda bastante o problema que o branding precisa resolver.
Quando uma empresa começa a atuar em diferentes categorias, formatos e pontos de contato, depender exclusivamente de um logotipo se torna insuficiente. É preciso desenvolver códigos capazes de funcionar em um carro, uma equipe de competição, uma peça de roupa, um evento, uma interface digital ou uma experiência para clientes sem perder reconhecimento.
É quando identidade deixa de ser apenas assinatura e passa a funcionar como sistema.
Também é difícil analisar a nova marca isoladamente do momento vivido pela McLaren.
Ao longo de 2026, a companhia passou a revisitar de forma mais explícita sua própria história. A trajetória de Bruce McLaren ganhou novamente protagonismo, incluindo a celebração do M6GT como uma das primeiras manifestações de sua ambição de construir um automóvel de rua e a apresentação do McL 6GT como uma interpretação contemporânea dessa visão.





Nas pistas, esse mesmo movimento aparece em outro contexto. A McLaren Racing chegou ao seu milésimo Grande Prêmio de Fórmula 1 e anunciou seu Hypercar para o Campeonato Mundial de Endurance, ampliando novamente sua presença nas principais categorias do automobilismo internacional e perseguindo novos capítulos de uma história que atravessa F1, Indianapolis e Le Mans.
Ao mesmo tempo, a McLaren Automotive prepara uma transformação importante em seus negócios. A companhia anunciou um programa de investimento de £500 milhões para ampliar sua capacidade de engenharia e manufatura no Reino Unido e confirmou que pretende avançar para além dos tradicionais supercarros de dois lugares, incluindo o desenvolvimento de um futuro SUV de alta performance.
Nesse contexto, a mudança de identidade deixa de parecer um acontecimento isolado.
Ela acompanha uma empresa que precisa ser reconhecida em mais lugares, por públicos diferentes e em categorias nas quais talvez nunca tenha atuado anteriormente.
E existe um paradoxo interessante nisso: quanto mais a McLaren pretende expandir o significado da própria marca, mais importante se torna definir aquilo que não deve mudar.
É justamente aí que entram Bruce McLaren, o posto de Remuera, o Kiwi, o Papaya e os demais elementos recuperados de seus arquivos.
Durante alguns anos, boa parte dos grandes projetos de rebranding pareceu perseguir uma ideia semelhante de futuro: marcas mais simples, tipografias geométricas, sistemas flexíveis e identidades construídas para funcionar perfeitamente dentro de pequenas telas.
O resultado foi uma geração de empresas tecnicamente bem resolvidas, mas que em muitos casos começaram a parecer visualmente próximas demais umas das outras.
A McLaren segue parte dessa lógica de simplificação, mas adiciona um ingrediente mais difícil de reproduzir; a sua própria história.
Qualquer fabricante pode adotar uma tipografia limpa. Qualquer empresa pode criar uma paleta vibrante ou desenvolver um símbolo aerodinâmico. Mas somente a McLaren pode transformar a placa do posto administrado pelos pais de Bruce em parte de sua identidade, utilizar um Kiwi como referência às suas origens neozelandesas e carregar décadas de associação com o Papaya nas pistas.
Talvez essa seja uma das lições mais interessantes desse projeto. Em um momento em que ferramentas, tecnologias e linguagens visuais tornam cada vez mais fácil produzir algo tecnicamente sofisticado, aquilo que não pode ser facilmente replicado ganha valor.
História, memória, cultura e significado tornam-se ativos de diferenciação.
A nova McLaren não tenta voltar para 1963. Ela parece fazer algo mais inteligente: pergunta o que existe em 1963 que ainda pode ajudá-la a ser relevante em 2030.
Para uma empresa que nasceu da ideia de que sempre existe uma maneira de ir um pouco mais longe, olhar pelo retrovisor antes de acelerar talvez não seja contraditório.