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O design pede uma pausa: 4 maneiras de perceber o cotidiano, segundo a Apple
Conheça os quatro projetos do Designers of Tomorrow 2026, mostra que conecta design, materiais e experiências sensoriais.
Conheça os quatro projetos do Designers of Tomorrow 2026, mostra que conecta design, materiais e experiências sensoriais.
Quem são os designers que precisamos ficar de olho? Na segunda edição do Designers of Tomorrow, em Paris, a Apple explora como objetos, materiais e tecnologia podem transformar nossa relação com o cotidiano e reúne 4 designers que merecem nossa atenção.
Apresentado em 20 de outubro, o Designers of Tomorrow 2026 é uma iniciativa da Apple em colaboração com a Design Miami e reúne quatro propostas de designers emergentes que exploram o tema presença.
A exposição acontece no Hôtel de Maisons, em Paris, sob curadoria de Rodman Primack, ex-diretor criativo da Design Miami. Os participantes foram escolhidos por um júri internacional formado por profissionais do design, incluindo Molly Anderson, da Apple.
A ideia parte de uma observação bastante atual: nossa atenção é disputada o tempo inteiro. Nesse contexto, o que faz um objeto nos convidar a parar, observar e perceber o ambiente ao redor? Curiosamente (pelo menos para mim) essa pergunta surge depois de uma palestra que dei na ESPM, em São Paulo, sobre os impactos da IA e onde falei que precisamos (re)aprender a ociosidade.
Na exposição, as respostas aparecem em peças que misturam técnicas artesanais, materiais inesperados e ferramentas digitais. Entre os trabalhos estão uma cadeira que produz sons, uma luminária construída com fibras vegetais e uma estrutura de aço que se transforma em espaço de convivência.


Três lápis tão gastos que já não servem para escrever encontram uma nova função: virar pregos. Eles ajudam a sustentar uma luminária feita de papel e madeira, criada pela designer sul-coreana Yoonjeong Lee. Baseada em Seul, a designer encontrou sua interpretação de presença em algo pequeno e familiar.
Em New Form, os três lápis desgastados ganham uma releitura e tornam-se parte da estrutura de um objeto que combina mesa e luminária. A base de madeira foi construída com aproximadamente 5 mil folhas finas de lâmina de madeira sobrepostas, enquanto folhas de papel difundem suavemente a luz.

Existe uma atenção especial àquilo que normalmente permaneceria escondido. Elementos estruturais deixam de ser apenas soluções técnicas e passam a participar da identidade visual do objeto.
O trabalho também revela uma característica recorrente na produção de Lee: a construção de volume por repetição. Uma folha de madeira é delicada, mas milhares delas, cuidadosamente organizadas, formam uma estrutura sólida.
No processo criativo, a designer utilizou iPad Pro e Apple Pencil para desenvolver esboços e registrar ideias. A integração entre dispositivos, por meio de ferramentas como iCloud e AirDrop, ajudou a organizar as diferentes etapas do projeto.


O trabalho da norte-americana Isabel Rower parte de outra experiência cotidiana; o ato de sentar.
Sua peça Padded Chair 1860 revisita referências do mobiliário em papier-mâché dos séculos XVIII e XIX, combinando proporções expressivas, acabamento brilhante e uma franja de contas de cerâmica.
O detalhe mais curioso aparece na interação com o objeto. Quando tocadas, as contas produzem sons, acrescentando uma dimensão auditiva à experiência.

A cadeira chama atenção pela aparência, mas também desperta curiosidade sobre seus materiais e sobre o que acontece quando alguém se aproxima dela e, principalmente, a toca.
É uma maneira de explorar como o design pode alterar a percepção de uma atividade tão automática quanto ocupar um assento.
Rower utiliza o iPhone para fotografar ideias e documentar seu processo, além de organizar referências visuais no MacBook Pro. O Keynote também entra no fluxo de criação como ferramenta para experimentar composições e relações entre imagens e textos.


O arquiteto egípcio-dinamarquês Salem S. Charabi investiga a relação entre técnicas tradicionais e ferramentas contemporâneas.
Em The Eminence of Light, ele desenvolveu uma luminária que combina fibras de folhas de tamareira, papel de bananeira e uma base de pedra calcária.
A construção reúne referências culturais e procedimentos artesanais de diferentes origens. Técnicas japonesas de trabalho com papel, por exemplo, foram aplicadas à estrutura feita com folhas de palmeiras egípcias.

Cada componente exige precisão. As pequenas peças vegetais, com aproximadamente três milímetros de largura, foram divididas e perfuradas manualmente para formar uma estrutura delicada.
O contraste entre a leveza das fibras, a textura do papel e o peso da pedra dá personalidade ao projeto.
Para chegar ao resultado, Charabi utilizou o MacBook Pro na criação dos esboços e na modelagem tridimensional. O planejamento digital permitiu estudar os encaixes e as relações entre componentes antes da execução artesanal.
O resultado mostra como ferramentas contemporâneas podem participar da preservação e da reinvenção de técnicas tradicionais de fabricação.


O estúdio mexicano Parafernalia, formado por Genki Matsumura e Sebastián Zorrilla, interpreta a presença a partir das relações entre pessoas e ambientes.
Sua criação, MonoAmbiente 1, é uma estrutura de aço inoxidável que apresenta duas configurações.
Fechada, a peça funciona como uma superfície escultórica, marcada por uma paisagem gravada no metal por um processo químico. Quando aberta, revela uma mesa e bancos, criando um pequeno ambiente de convivência.

A transformação convida as pessoas a participar do objeto. A estrutura pode receber uma conversa, uma partida de xadrez ou uma bebida compartilhada.
Há uma relação interessante entre o projeto e a maneira como ele foi desenvolvido. Matsumura e Zorrilla trabalham em cidades diferentes, Monterrey e Cidade do México, e utilizam ferramentas como FaceTime, Mensagens, Procreate e iPad Pro para trocar ideias e acompanhar o processo criativo.
A tecnologia permite que os dois mantenham uma prática colaborativa mesmo sem compartilhar fisicamente o mesmo espaço.
Existe também uma dimensão de posicionamento de marca nessa iniciativa. Um trabalho de branding que a Apple sabe fazeer perfeitamente.
Ao reunir designers que trabalham com mobiliário, iluminação e objetos escultóricos, a Apple amplia a conversa sobre seus produtos para além das atividades digitais mais conhecidas (e no embalo dos últimos anúncios para casa, apesar de não terem sido citados). MacBooks, iPads e iPhones aparecem como ferramentas de pesquisa, documentação, modelagem, comunicação e experimentação.
O interessante é perceber que nenhum dos quatro projetos depende de uma aparência tecnológica para expressar inovação.
As obras utilizam madeira, papel, pedra, cerâmica e metal. São materiais conhecidos, mas trabalhados de maneiras que despertam novas experiências e interpretações.
Nesse sentido, a exposição oferece uma perspectiva sobre o processo criativo contemporâneo. Ferramentas digitais convivem com procedimentos manuais, referências históricas e experimentação material.
Há ainda uma escolha simbólica no tema desta edição. Uma empresa reconhecida por produzir dispositivos que concentram boa parte da nossa atenção agora apoia uma exposição dedicada justamente à presença física e sensorial.
É uma contradição interessante, que ajuda a explicar o valor cultural da iniciativa para a Apple.
Entre uma cadeira que pode ser ouvida, uma luminária feita de fibras vegetais e um móvel que se abre para receber pessoas, o Designers of Tomorrow 2026 apresenta possibilidades de design que começam pela observação do cotidiano.
E talvez essa seja a característica mais interessante dos trabalhos reunidos em Paris: eles fazem objetos familiares merecerem um segundo olhar.