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Robôs e futuro – Parte 1: Afinal, a tecnologia já enterrou o trabalho?

Robôs E Futuro - Parte 1: Afinal, A Tecnologia Já Enterrou O Trabalho?

Tecnologia e trabalho parecem, hoje, não ter uma relação lá muito saudável. As notícias que se lê entoam, em uníssono, os investimentos pesados feitos por empresas em automação de processos, os rios de inovação privada em robótica e inteligência artificial, o aumento estrutural do desemprego em uma série de setores industriais, fraco crescimento dos salários reais dos trabalhadores. Enfim, parece mesmo que a tecnologia está colocando uma pedra no sapato da carreira e do bem-estar de muita gente, principalmente das gerações pós-1990. A pergunta que paira no ar é, portanto: estamos mesmo fadados a um futuro tão obscuro assim? A resposta, e talvez vocês se surpreendam, é não! 

A automação que temos visto nos principais polos industriais do mundo é, de fato, uma ameaça para os trabalhadores, apesar de não haver consenso entre os acadêmicos. Uma pesquisa liderada pelo investigador Daron Acemoglu, do MIT, feita nos Estados Unidos para um período de quase 30 anos (1980-2009) mostra que a substituição de trabalhadores por algum tipo de tecnologia da informação não tem aumentado a produtividade desses setores em um nível suficiente para que a demanda por produtos mais intensivos em trabalho cresça. E em muitos setores, o aumento marginal da produtividade do trabalho tem vindo às custas de uma rápida diminuição da população empregada e não de um aumento significativo da produção. Esse é um problema sério, porque é por meio desse efeito-produção que novas tarefas que dependem de trabalho humano são criadas ao longo da cadeia produtiva e compensam as perdas da substituição direta. Outra pesquisa, dos economistas Georg Graetz (Uppsala University) e Guy Michaels (London School of Economics)  com 17 países e múltiplas indústrias com dados de 1993 a 2007 mostrou, ao contrário, que o aumento do uso de robôs trouxe melhora tanto no número de empregos quanto na produtividade dos trabalhadores. No final, o que isso nos revela é que o problema da substituição de trabalhadores por robôs não é em si o problema, mas sim a força dos efeitos e as condições econômicas nas quais estes são gerados, tanto no mercado de produtos finais quanto nos mercados de trabalho. 

Apesar de ainda não haver uma conclusão geral sobre o assunto, se fizermos um breve experimento mental, veremos que as condições para que a automação gere benefícios para a sociedade são muito específicas. Primeiro, o tal efeito-produção teria que ser muito forte ao longo do tempo para que o mercado de trabalho se tornasse mais dinâmico; segundo, o efeito-preço para o consumidor também teria que ser poderoso, ou seja, a redução do custo de produção trazida pela automação teria que ser tal e qual transferido para o preços dos produtos finais, mantidas as taxas de lucro pelas indústrias.  No primeiro caso, se levarmos o argumento ao limite, de automação completa, esse efeito-produção, caso ocorresse de forma significativa, seria capturado em outras indústrias, não por trabalhadores, mas por outros robôs. No segundo caso, o efeito-preço por si só não sustentaria aumento de bem-estar da população. Afinal, preços menores aumentam o ganho real, mas se as pessoas não tem mais um trabalho e vivem de transferências governamentais, não haveria muito espaço para aumento de bem-estar e mobilidade social. Soma-se a isso ainda o fato de que pesquisa e tecnologia tendem a concentrar mercados, devido aos altos custos fixos iniciais, e essa concentração é muitas vezes mantida posteriormente por acúmulo de poderes político e econômico, sem que a inovação permaneça. Ou seja, mais um entrave para que o efeito-preço seja uma panaceia.

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A provável solução de mercado para a questão da automação não deve ir na direção de aumento de bem-estar (e aqui entra uma definição muito maior do que o PIB per capita – produção por habitante). Essa solução tipicamente olha pelo lado do custo e o robô é sim a alternativa mais barata quando entendemos que esse aparelhos, dada a mesma produtividade de um trabalhador, são de fácil manutenção, não precisam ter jornadas de apenas 40 horas semanais, não são cidadãos de um país e, portanto, não têm direitos constitucionais.

A solução que parece ser a mais sensata para o problema tecnológico é tornar o capital produtivo novamente complementar ao trabalho. Para isso, a solução tem que vir de fora do mercado privado. Longe de um Estado pesado e ineficiente, precisamos de um Estado que direcione, junto à iniciativa privada, o desenvolvimento tecnológico, por meio de pesquisa científica, para facilitar e aumentar a produtividade do trabalho. Uma alternativa dada por Acemoglu, um dos líderes neste tipo de literatura, é a de trocar robôs de altíssima precisão por máquinas de realidade aumentada que possibilitem trabalhadores fazer este mesmo tipo trabalho com igual precisão.

Muitos vão dizer que a solução de mercado é sempre a mais eficiente, mas, além de isso não ser verdade na maior parte dos casos, por conta da existência de externalidades e falhas de mercado, a eficiência por si só não garante bem-estar e uma sociedade mais justa (apenas garante que os recursos serão aplicados onde trazem os maiores retornos). Se o desemprego em massa passar a ser visto por aqueles que fazem política pública como uma externalidade, ou seja, algo que gera consequências fora dos mercados de trabalho, a intervenção do governo se faz necessária para que se consiga promover aumento de bem-estar generalizado.

As mudanças tecnológicas e das estruturas de mercado dos últimos anos acentuaram e muito as desigualdades no mundo, principalmente  entre aqueles que são donos de toda essa estrutura produtiva robotizada (e até mesmo do clássico capital imobiliário) e os trabalhadores. Isso nos mostra que o avanço tecnológico, tal como é conduzido hoje, está criando uma massa de perdedores, cada qual com demandas legítimas, que apenas acentua a instabilidade e o extremismo políticos. Esse é um dilema que deve ser enfrentado agora!

Saiba mais sobre o autor convidado: Derick Almeida é economista, doutorando em Economia e investigador contratado do Centro de Pesquisa em Gestão e Economia (CeBER) da Universidade de Coimbra, em Portugal. Atualmente desenvolve sua tese na área de Crescimento Econômico e suas relações com a Inteligência Artificial.

Imagem Destaque: Por Ociacia/Shutterstock

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