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Futuro

A cidade do futuro tem muito mais a ver com Platão que com os Jetsons

O que vem à sua cabeça quando se fala em cidade do futuro? Carros voadores? Arranha-céus espelhados e lares ultra-tecnológicos? Até pode ter um pouco disso, mas, certamente, não é nisso que os modelos urbanos do futuro deverão se basear – e o motivo é muito simples. Afinal, as cidades não são feitas para os veículos, edificações ou domicílios que as compõem, mas sim para as pessoas.

Tomando por base esse entendimento, defendido pelo jornalista português Mário Rui André em sua coluna para o Sapo.pt, fica fácil concluir que, se há um otimismo com relação ao futuro do urbanismo, ele certamente está centrado na figura dos cidadãos.

Por outras palavras, a cidade do futuro não é pura e simplesmente tecnológica: é sobretudo, o lar de cidadãos felizes e de uma comunidade harmônica. Mas para que isso se torne realidade, muita coisa precisa mudar no modelo atual.

Em seu texto, Mário defende que as megalópoles, lares da elite econômica, produtiva e tecnológica de um país, estão cada vez mais “insuportáveis” para quem nelas habita. Um exemplo? Poluição, congestionamentos, violência, custo de vida alto demais, barulho, proliferação de doenças infecto-contagiosas, serviços de má qualidade… desculpe, era para citar apenas um.

Bem, é por todos esses motivos que, conforme Mário explica, o paradigma atual de urbanização tem se aproximado da saturação, algo bastante visível com o êxodo urbano, alavancado recentemente pela pandemia e pela consequente ascensão do trabalho remoto.

Em um dado momento do artigo, o autor comenta que “as cidades desenhadas primordialmente para os carros são inóspitas e inseguras” e muito embora eu deva admitir que Brasília, a cidade onde moro, não seja inóspita, e tampouco insegura, para os padrões brasileiros, é fato que todo brasiliense tem a questão do transporte como um dos maiores problemas dessa capital planejada.

Por aqui, viajar mais de quarenta quilômetros diariamente, indo e voltando do trabalho, é considerado algo “normal”. E se você não possuir veículo próprio, a situação só tem como piorar.

O motivo é que Juscelino Kubitschek, o presidente responsável por trazer a capital ao centro-oeste na década de 1950, era um fã dos automóveis, e acreditava que eles eram o futuro do transporte.

A cidade do futuro não é centrada no carro, e, por isso, leva o protagonismo às pessoas

O carro próprio está saindo de moda. Somado à menor necessidade de sair de casa, também há o fato de que os veículos estão caros demais para comprar e manter – além disso, já reparou que quase todo carro agora é aventureiro ou utilitário esportivo? Nada mais que o mercado respondendo a uma tendência visível no consumidor, que, cada vez mais, associa o carro a um equipamento de viagem e lazer, em vez de um mero transporte.

Para não dizer que sou contra os carros (e olha que eu os adoro), o fato das cidades privilegiarem quem tem veículo próprio desencadeia uma série de outros problemas, uma vez que a população sem essa “sorte”, leia-se, a de ter um carro, também costuma ficar nas periferias. Como resultado, resta privada também do acesso à cultura, à diversão e, nos piores casos, até de importantes serviços públicos.

Já falamos sobre o que não é a cidade do futuro. Mas, então, o que ela será?

Até aqui, já concordamos que a cidade do futuro privilegia os cidadãos, não os carros, edifícios ou negócios. Para tanto, porém, essas metrópoles devem permitir sair para onde e quando quiser, oferecendo serviços básicos – como educação, comércio, lazer, saúde e oportunidades profissionais – a uma distância transponível a pé, ou, no máximo, de bicicleta, conforme explica Mário.

Ainda na descrição de cidade de futuro elaborada pelo português, os bairros são espaços “dinâmicos e multifuncionais”, oferecendo atividades comunitárias e de socialização entre os habitantes. Para Mário, as cidades deveriam incorporar, inclusive, elementos de vilarejos menores, como feiras e hortas comunitárias.

“O transporte público tem prioridade nas ruas em relação ao transporte individual e existem ruas só com transporte público, é complementado com a bicicleta e o andar a pé, e é utilizado por todos os tipos de pessoas, deixando de ser sinónimo de um estatuto social. Nas cidades do futuro, o bem estar, a saúde mental, a ansiedade e o conforto de todas as pessoas – independentemente do seu género ou condição física – são questões centrais no desenho urbano.”

Por fim, o jornalista ressalta que, como todas as grandes mudanças, a transição urbana para a cidade do futuro depende muito mais dos cidadãos do que de seus líderes, uma vez que, em suas palavras, é fomentada pela “mentalidade do futuro”, que antecede a materialização de seus valores na arquitetura e no urbanismo.

Dessa forma, é possível concluir que, diferentemente do que a cultura pop possa ter nos contado, a cidade do futuro tem muito mais a ver com a versão idealizada por Platão no livro A República, escrito no século IV AEC, do que com os Jetsons, série animada dos anos 1960.

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