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O clima entrou no briefing: Como o El Niño pode afetar o design

Entenda como o El Niño pode afetar designers, do calor no home office às quedas de energia e produções externas.

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Quando falamos em El Niño, a primeira imagem provavelmente não é um arquivo aberto no Figma, uma timeline de vídeo renderizando ou as layers do Photoshop.

Normalmente pensamos em mapas coloridos, previsões meteorológicas, chuva, seca e aquelas temperaturas que começam a aparecer em vermelho nos aplicativos de clima.

Mas talvez esteja na hora de aproximar um pouco esses dois mundos.

Para designers, fotógrafos, diretores de arte, outros tantos profissionais criativos cuja a rotina dependa de computadores, internet, energia elétrica (sim, eu sei que todo mundo depende hoje em dia) e condições minimamente confortáveis para trabalhar, o clima deixou de ser apenas uma informação consultada antes de sair de casa. Ele começa a fazer parte da infraestrutura do trabalho.

E o El Niño 2026–2027 ajuda a tornar essa relação mais evidente…

O fenômeno já está estabelecido e vem ganhando intensidade. No boletim do Climate Prediction Center, da NOAA, mostra 81% de probabilidade de o episódio atingir a categoria de muito forte entre outubro e dezembro de 2026. A Organização Meteorológica Mundial também aponta para uma intensificação do El Niño e mudanças importantes nos padrões de temperatura e precipitação ao redor do mundo.

Mas, antes de transformar isso em mais uma manchete apocalíptica, porém, existe uma distinção importante!

El Niño não significa que todos os lugares ficarão mais quentes, mais secos ou enfrentarão tempestades ao mesmo tempo. Nem que qualquer temporal daqui para frente possa ser automaticamente colocado na conta dele.

Marcely Sondermann, meteorologista da Climatempo, doutora em Meteorologia e especialista em clima e mudanças climáticas, explica que o aquecimento observado no Pacífico Equatorial interfere na circulação atmosférica e altera padrões de chuva, temperatura, umidade e ventos. Mas eventos extremos continuam sendo resultado da combinação de diversos fatores meteorológicos e climáticos (a famosa mudança climática).

Essa diferença é fundamental também para nós, criativos. Porque talvez o maior erro seja imaginar que existe um único impacto do El Niño sobre o “mercado criativo brasileiro”. Não existe. Assim como acontece com o clima, tudo depende do CEP.

O mesmo briefing, quatro Brasis

Tive o prazer de acompanhar uma análise apresentada por Marcely, que mostrou que Norte e Nordeste devem enfrentar maior irregularidade das chuvas, períodos secos e episódios persistentes de calor. No Sul, o cenário chama atenção pela maior frequência e volume de chuvas e pelo risco associado a tempestades. Centro-Oeste e Sudeste, por sua vez, podem alternar calor intenso, períodos mais secos e temporais localizados com raios e rajadas de vento.

Se você quiser aprofundar no tema, escrevi um “guia” sobre o cenário em “Tudo o que você precisa saber sobre o El Niño 2026-2027“, publicado pelo InovaSocial. O texto mostra justamente por que uma previsão nacional precisa ser lida considerando diferenças regionais, infraestrutura, vulnerabilidade e capacidade de adaptação.

Para o profissional criativo, essa leitura regional muda bastante coisa.

Uma produtora em Porto Alegre talvez precise pensar com mais cuidado em deslocamentos, gravações externas, eventos e logística durante períodos de chuva intensa. Um estúdio em Goiânia pode conviver com semanas muito quentes e ar extremamente seco. Já um freelancer em Recife terá preocupações diferentes.

É quando algo aparentemente distante da nossa profissão começa (e deve) entrar no cronograma. A pergunta deixa de ser apenas “vai chover amanhã?” e passa a ser o nosso processo de trabalho está preparado para funcionar quando o clima sair do padrão?

Seu computador também sente o verão

Existe certa romantização do trabalho criativo digital como algo quase independente do mundo físico. Você abre o notebook, conecta no Wi-Fi e pronto. O escritório está em qualquer lugar — e durante muito tempo alguns “nômades digitais” venderam este sonho, mas a coisa não é bem assim.

Na prática, nosso trabalho depende de uma quantidade enorme de infraestrutura invisível. Na última semana precisei acionar um gerador solar que tenho, só por causa de um vendaval em São Paulo.

Além disso, computadores de alta performance dissipam calor. Monitores, equipamentos de áudio, iluminação, impressoras 3D e estações gráficas consomem energia. Renderizações, exportações de vídeo e operações com inteligência artificial podem manter máquinas trabalhando intensamente durante longos períodos — e muito profissional nem leva isso em conta.

Agora coloque tudo isso dentro de um pequeno home office durante uma sequência de tardes muito quentes. A discussão sobre climatização muda rapidamente de “conforto” para condição de trabalho.

A OMS chama atenção para o impacto crescente do estresse térmico no ambiente profissional. Segundo a organização, a produtividade tende a cair conforme aumenta a exposição ao calor ocupacional; razão pela qual organizações vêm defendendo planos específicos de prevenção e adaptação para trabalhadores expostos a temperaturas elevadas. Mas isso não diz respeito exclusivamente a quem trabalha na construção civil ou sob o sol.

A própria OMS observa que trabalhadores em ambientes internos também podem enfrentar estresse térmico quando os espaços não possuem sistemas adequados de resfriamento ou ventilação.

Para quem passa oito ou dez horas diante de uma tela, portanto, ergonomia não deveria terminar na altura da cadeira ou na distância do monitor. Temperatura também é ergonomia.

Climatização começa a virar ferramenta de produtividade

Essa discussão esteve no centro de um encontro promovido pela LG, em São Paulo, no fim de julho, que reuniu especialistas, jornalistas e criadores para discutir mudanças climáticas e climatização residencial.

Durante a apresentação, foi mostrado que a tecnologia pode ser usada tanto para otimizar o consumo de energia, quanto para tornar os equipamentos mais resilientes diante de oscilações no fornecimento. É uma perspectiva especialmente relevante para profissionais criativos.

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Um post compartilhado por Victor Vasques (@victorvasques)

Se durante muito tempo o ar-condicionado no escritório doméstico podia ser visto como um conforto adicional (pelo menos em São Paulo; em algumas regiões já é obrigatório), períodos cada vez mais frequentes de temperaturas extremas mudam essa equação. O problema é que climatizar um ambiente também significa aumentar o consumo de energia, justamente em períodos nos quais a demanda elétrica pode estar pressionada. Por isso, eficiência passa a importar tanto quanto potência.

A linha DUAL Inverter AI apresentada pela LG é um exemplo desse movimento. Recursos como o AI kW Manager permitem acompanhar e gerenciar o consumo de eletricidade, enquanto sensores podem identificar condições como uma janela aberta e alterar o funcionamento para reduzir desperdícios. São pequenas automações, mas representam uma mudança maior: nossos dispositivos domésticos começam a participar ativamente da administração energética da casa. No home office criativo, isso ganha outra camada.

Não estamos resfriando apenas a sala. Estamos mantendo um ambiente onde pessoas e equipamentos precisam continuar funcionando em alto desempenho.

Tempestades também entram no workflow

Há outro ponto da apresentação da climatologista do Climatempo que merece atenção especial de quem trabalha com arquivos digitais.

Com a possibilidade de tempestades mais severas em determinadas regiões durante a primavera, a dra. Marcely chama atenção para uma maior exposição da infraestrutura elétrica a raios, ventos e interrupções localizadas no fornecimento.

Quem já perdeu horas de trabalho porque a energia caiu enquanto o After Effects exportava um projeto sabe exatamente onde essa conversa vai chegar: desespero, gritos e estresse desnecessário (em alguns casos, choro).

No-break, proteção elétrica adequada, salvamento automático, armazenamento redundante e backup deixam de ser preocupações exclusivas do departamento de TI. Viraram parte da operação criativa.

Isso vale também para a internet. Um estúdio, independente do tamanho, cuja operação inteira está na nuvem (nosso caso na Com limão & Co.) continua dependendo da infraestrutura física que conecta aquela sala ao restante do mundo. Quando existe indisponibilidade elétrica ou de telecomunicações, ter os arquivos online não significa necessariamente conseguir acessá-los.

Resiliência digital, nesse contexto, significa evitar um único ponto de falha. O mesmo raciocínio pode ser aplicado ao cronograma.

Um projeto importante não deveria depender exclusivamente de uma única máquina, uma conexão, uma pessoa ou um prazo sem margem para imprevistos. Num cenário de maior variabilidade climática, planejamento deixa de significar apenas prever quantas horas um trabalho levará para ficar pronto. Significa trabalhar com contingência.

Existe ainda uma questão de orçamento

Não podemos falar de climatização, computadores potentes e infraestrutura redundante sem falar de dinheiro.

Freelancers e pequenos estúdios vivem uma realidade bastante diferente de grandes agências, que contam com geradores, departamentos de TI e escritórios climatizados. Isso torna adaptação climática também uma discussão econômica.

Ainda na apresentação da dra. Marcely, foi mostrado que a previsão é de chuvas irregulares em áreas importantes para os reservatórios hidrelétricos e isso pode pressionar a operação do sistema elétrico e aumentar a necessidade de outras fontes de geração. Trata-se de um cenário, não de uma previsão de tarifa específica, mas é suficiente para reforçar a importância da eficiência energética.

Para profissionais criativos, talvez seja um bom momento para finalmente olhar aquela informação que costumamos ignorar como consumidores, a ficha técnica de consumo.

Quando falo que gosto do desempenho dos computadores da Apple e que eles possuem um sistema de consumo mais eficiente, é disso que estou falando. Um monitor melhor calibrado energeticamente, equipamentos que entram corretamente em repouso ou um sistema de climatização capaz de administrar melhor a demanda podem ter impacto acumulado sobre a operação de um pequeno negócio.

É pensando assim que (talvez) estejamos entrando numa fase em que performance por watt também deveria fazer parte do briefing de compra. Pode ser que, aquele computador de um valor maior seja mais interessante a médio/longo prazo.

Design resiliente começa antes da emergência

O El Niño é um fenômeno natural. A mudança climática é outra questão, provocada principalmente pelo aumento das concentrações de gases de efeito estufa decorrentes das atividades humanas. Os dois fenômenos não são a mesma coisa, mas podem atuar simultaneamente sobre um planeta que já está mais quente.

Para designers, isso significa que clima e adaptação provavelmente aparecerão cada vez mais em lugares que não costumávamos associar ao assunto.

Na arquitetura de escritórios. No design de produtos. Na escolha de materiais. Na interface de aplicativos de emergência. Na comunicação publica. Na infraestrutura dos estúdios. Nos equipamentos que compramos. E, principalmente, na maneira como organizamos o trabalho.

Não significa desenvolver tudo pensando no pior cenário possível. Significa abandonar a ideia de que condições estáveis são garantidas. Talvez resiliência seja uma das próximas grandes especificações invisíveis do design.

Assim como aprendemos a pensar em responsividade, acessibilidade, redundância, experiência e sustentabilidade, precisamos começar a perguntar se aquilo que projetamos e a própria estrutura que utilizamos para projetar continuam funcionando quando a temperatura sobe, a energia oscila ou a tempestade chega. O clima entrou no briefing… e não parece que vai sair tão cedo!



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