Futuro

Inovar não é só ter uma boa ideia. É saber conectar

Relatório mapeia capacidades para inovar e mostra por que conexões entre ciência, tecnologia, empreendedorismo e produção são decisivas.

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A inovação costuma ser tratada como sinônimo de descoberta, invenção ou genialidade. Mas, em um momento onde a nossa sociedade passa por uma frenesi com a inteligência artificial, o relatório Innovation Capabilities Outlook 2026, publicado pela World Intellectual Property Organization (WIPO), em parceria com o Growth Lab da Universidade Harvard, propõe uma leitura mais sistêmica sobre o tema: inovar depende menos de atos isolados e mais da capacidade de conectar ciência, tecnologia, empreendedorismo e produção.

O estudo analisou 2.508 campos de inovação entre 2001 e 2023, distribuídos em quatro dimensões: produção (862 campos); ciência (628); empreendedorismo (538); e tecnologia (480).

A metodologia cruza dados de exportações industriais, marcas internacionais, famílias internacionais de patentes e publicações científicas indexadas, criando uma espécie de mapa global das capacidades de inovação.

O primeiro grande alerta do relatório é a concentração. Em 2023, as dez principais economias do mundo responderam por 54% das exportações avançadas, 73% das marcas internacionais, 87% das patentes e 70% das publicações científicas. Ou seja: apesar da inovação ter se tornado um discurso global, sua produção efetiva ainda está fortemente concentrada em poucos ecossistemas.

Segundo a WIPO, a maioria dos países contribui com menos de 1% em cada uma dessas dimensões. Isso mostra que o desafio não é apenas “investir em inovação”, mas construir as bases necessárias para que diferentes competências se reforcem: pesquisa científica, capacidade tecnológica, ambiente empreendedor, produção industrial, instituições e talentos.

“Inovação não está democratizada. Há uma forte desigualdade estrutural”

Um dos pontos mais interessantes do relatório é a ideia de que indivíduos se especializam, mas ecossistemas se diversificam. Em um mundo no qual o conhecimento se tornou amplo demais para caber em uma única pessoa ou organização, a inovação passa a depender de redes: equipes, empresas, universidades, governos e mercados capazes de combinar especializações distintas.

Os dados mostram que a produção de inovação cresceu desde 2001, acompanhando a expansão das economias baseadas em conhecimento. As publicações científicas por habitante chegaram a cerca de 2 vezes o patamar de 2001; a produção avançada cresceu 1.78 vez; o PIB, 1.64 vez; o empreendedorismo, 1.27 vez; e a tecnologia, medida por patentes, apenas 1.15 vez. O dado mais incômodo está justamente aí; a tecnologia cresce menos do que outras dimensões, sugerindo dificuldades em transformar conhecimento em soluções patenteáveis.

Existem “dois mundos” da inovação. Um grupo (principalmente Ásia, incluindo China, Índia, Vietnã) domina estratégias avançadas. Outro grupo (grande parte do mundo) não consegue evoluir complexidade nem diversidade.

A Ásia aparece como uma região em forte transformação. China, Índia e Vietnã são destacados como economias que conseguiram combinar diversificação inteligente com foco em capacidades mais complexas. Em contraste, o relatório aponta que 46% dos ecossistemas não se diversificaram de forma significativa e que ganhos de complexidade continuam difíceis para 70% das economias.

Diversidade de capacidades por economia

Tamanho importa, mas não explica tudo

1.China(1,4 bi)
92,4%
2.Estados Unidos(333,3 mi)
89,8%
3.Alemanha(84,1 mi)
88,7%
4.Países Baixos(17,7 mi)
80,3%
5.Itália(58,9 mi)
79,5%
6.França(67,9 mi)
78,1%
7.Áustria(9 mi)
77,3%
8.Reino Unido(67 mi)
74,7%
9.Suécia(10,5 mi)
74,5%
10.Espanha(47,6 mi)
73,2%
O relatório destaca que ecossistemas médios e pequenos também podem alcançar alta diversidade de capacidades; a Áustria, por exemplo, aparece com 77,3% de cobertura de diversidade mesmo com população de 9 milhões.WIPO

Essa diferença entre crescer e sofisticar é central. Entre 2014 e 2023, 68% das economias aumentaram o PIB per capita e 66% ampliaram sua diversidade de capacidades, mas apenas 30% conseguiram aumentar a complexidade de seus ecossistemas de inovação. Em outras palavras, muitos países conseguem crescer e até diversificar atividades, mas poucos avançam para campos realmente sofisticados e interdependentes.

O Brasil aparece de forma pontual, mas relevante. O relatório cita o país entre os ecossistemas que conseguiram entrar no cenário global de inovação como players relevantes, ao lado de Índia, Vietnã, Arábia Saudita, Ucrânia e outros. Também afirma que o Brasil apresenta quase nove vezes mais diversidade de capacidades do que a Nigéria, apesar de populações comparáveis, um indicativo de que escala populacional importa, mas não explica tudo.

Para a América Latina e o Caribe, o diagnóstico é especialmente interessante. A região é descrita como um sistema movido principalmente por ciência e produção. A pesquisa científica contribui com 26% a 36% do potencial de inovação, enquanto as capacidades produtivas representam 43% a 53%. O problema está na tradução dessas bases em novos negócios e avanços tecnológicos — uma dificuldade conhecida por muitos países da região, inclusive o Brasil.

// E o Brasil?

Brasil aparece entre os novos atores relevantes do sistema global de inovação.

9x

População parecida, diversidade muito diferente.

O Brasil apresenta quase 9 vezes a diversidade de capacidades da Nigéria, apesar da população comparável.

América Latina & Caribe O desafio regional é transformar base científica e produtiva em tecnologia e novos negócios.

Talvez o dado mais forte do relatório seja o potencial não realizado. Apenas 10% das economias cumprem seu potencial tecnológico em patentes, contra 27% em marcas, 30% em exportações e 32% em publicações científicas. Globalmente, os ecossistemas deixam de produzir cerca de 339 mil inovações tecnológicas complexas por ano, além de 40.6 mil marcas complexas e US$ 1,4 trilhão em exportações complexas potenciais.

O verdadeiro diferencial competitivo não é inovar mais — é conectar melhor, escolher melhor e evoluir com estratégia.

O recado final do relatório é direto: não existe política de inovação de tamanho único. Economias avançadas, emergentes e em desenvolvimento enfrentam gargalos diferentes. A Europa, por exemplo, tem bases científicas e produtivas fortes, mas problemas de tradução tecnológica. A Ásia tem capacidades mais equilibradas, mas enfrenta desafios de comercialização empreendedora. Já regiões em desenvolvimento precisam fortalecer capacidades fundamentais antes de avançar para campos mais complexos.

No fundo, o relatório reforça uma ideia essencial para empresas, governos e organizações: inovação não é só criar algo novo. É construir um ecossistema capaz de transformar conhecimento em valor. E isso exige estratégia, conexões e escolhas inteligentes sobre investir energia, talento e recursos.


Imagem Destaque: Sam Grozyan/Unsplash


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