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Como a Coca-Cola está usando inteligência artificial para reforçar o branding

Rapha Abreu, VP de Design, explica como a Coca-Cola utiliza IA para fortalecer identidade e ampliar o design em escala.

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Em um cenário marcado pela aceleração da inteligência artificial, uma das discussões mais frequentes gira em torno da automação de processos criativos. Ferramentas capazes de gerar imagens, vídeos, textos e interfaces em poucos segundos alimentam previsões (até certo ponto apocalípticas) sobre profundas transformações no design.

Durante uma palestra recente na ESPM-SP, em parceria com a ABEDESIGN, Rapha Abreu, vice-presidente global de design da Coca-Cola, apresentou uma perspectiva diferente — e, até certo ponto, otimista para os profissionais do design. Em vez de concentrar a conversa na substituição de profissionais ou na busca por eficiência operacional, ele compartilhou como a empresa vem utilizando inteligência artificial para proteger, fortalecer e expandir a consistência de uma das marcas mais reconhecidas do planeta.

A reflexão parte de uma realidade singular. Poucas organizações operam em uma escala comparável à da Coca-Cola. Todos os dias, mais de 2,2 bilhões de produtos da companhia são consumidos em diferentes partes do mundo. A empresa possui centenas de marcas em seu portfólio, está presente em mais de 200 países e se comunica em dezenas de idiomas (todas adaptadas para culturas específicas).

O design funciona como um fio condutor que conecta todas as formas de expressão das nossas marcas, desde as grandes campanhas globais até as adaptações locais.

Rapha Abreu, vice-presidente global de Design da Coca-Cola
Como a Coca-Cola está usando inteligência artificial para reforçar o branding

Manter uma identidade visual coerente diante dessa complexidade exige muito mais do que campanhas criativas. Exige sistemas capazes de atravessar fronteiras culturais sem perder reconhecimento, relevância e significado.

O design como infraestrutura de marca

Rapha destacou que o papel do design dentro da Coca-Cola vai muito além da construção estética. Segundo ele, a missão de sua equipe consiste em garantir que marcas globais continuem sendo facilmente reconhecidas e emocionalmente relevantes em diferentes mercados.

Como a Coca-Cola está usando inteligência artificial para reforçar o branding

Essa responsabilidade se materializa em praticamente todos os pontos de contato com o consumidor. O design está presente nas embalagens, nas campanhas publicitárias, nos caminhões de distribuição, nos ambientes físicos, nas plataformas digitais e nos materiais utilizados pelos parceiros ao redor do mundo.

Quando uma pessoa identifica uma lata vermelha na prateleira, reconhece uma garrafa mesmo à distância ou associa uma determinada linguagem visual à marca, existe um trabalho contínuo de construção e manutenção dessa familiaridade.

Para empresas globais, familiaridade representa um ativo valioso. Quanto maior a consistência ao longo do tempo, maior a capacidade de ocupar espaço na memória coletiva.

E a marca sabe bem fazer este tipo de trabalho. A história da Coca-Cola oferece exemplos emblemáticos dessa busca por continuidade. Um dos casos mais conhecidos é a garrafa Contour (criada em 1915!). O briefing original estabelecia que a embalagem deveria ser reconhecida mesmo se estivesse quebrada no chão.

A construção de um ícone não acontece por acaso. Ela é fruto de consistência, disciplina, cuidado com cada detalhe e uma visão muito clara de design.

Rapha Abreu, vice-presidente global de Design da Coca-Cola

Mais de um século depois, a garrafa continua sendo um dos símbolos mais conhecidos da cultura de consumo global.

O mesmo acontece com outros elementos da identidade da marca. O logotipo, a paleta de cores e diversos componentes visuais foram preservados e atualizados ao longo das décadas sem perder sua essência.

Internamente, a empresa utiliza dois conceitos para orientar esse equilíbrio. Um deles está relacionado à capacidade de permanecer relevante ao longo do tempo. O outro diz respeito à necessidade de dialogar com o presente e acompanhar as transformações culturais.

A combinação desses dois princípios permite que a marca continue reconhecível para diferentes gerações enquanto mantém conexão com novos públicos.

O desafio da escala global

Como a Coca-Cola está usando inteligência artificial para reforçar o branding

Embora a construção de uma identidade forte seja complexa, preservá-la em centenas de mercados simultaneamente representa um desafio ainda maior.

As grandes campanhas da Coca-Cola costumam nascer em equipes centrais e depois seguem para times regionais e locais. Em cada etapa, diversos profissionais adaptam mensagens, imagens e experiências para contextos específicos. Esse processo envolve centenas de equipes trabalhando sobre os mesmos sistemas visuais.

A diversidade cultural torna essas adaptações indispensáveis. Uma campanha criada para um país dificilmente será aplicada de maneira idêntica em outro mercado. Há diferenças de idioma, hábitos de consumo, culturas e comportamentos sociais.

Ao mesmo tempo, a empresa precisa garantir que a essência da marca permaneça intacta. A gestão desse equilíbrio entre flexibilidade e consistência tornou-se uma das principais questões enfrentadas pelas equipes globais de design.

Uma das maiores forças de uma marca é fazer tudo isso parecer simples e coerente para as pessoas, em qualquer lugar do mundo.

Rapha Abreu, vice-presidente global de Design da Coca-Cola

Quando a inteligência artificial passa a integrar o processo criativo

Alguns anos atrás, a equipe de design da Coca-Cola começou a imaginar se seria possível ensinar a própria identidade visual da marca a uma inteligência artificial. A ideia era desenvolver sistemas capazes de compreender os princípios que definem a linguagem visual da marca.

Na época, a tecnologia ainda não permitia colocar essa visão em prática, mas (assim como tudo neste cenário) a situação mudou rapidamente. Com a evolução dos modelos generativos e o avanço das ferramentas criativas, a empresa desenvolveu, em parceria com a Adobe, um sistema chamado Project Fizzion.

“Com o Fizzion, nossos elementos de design se tornam inteligentes. Logotipos, tipografia, imagens — as diretrizes da marca agora vivem de forma inteligente dentro deles. Cada elemento entende como deve se comportar, se adaptar e ser dimensionado em qualquer contexto”, disse Rapha Abreu, Vice-Presidente Global de Design. “Trata-se de incorporar IA no coração do nosso sistema de marca para que a criatividade possa fluir mais rapidamente, sem perder sua essência.”Leia mais aqui.

A proposta era criar uma camada de inteligência capaz de compreender diretrizes visuais, identificar padrões e apoiar a aplicação correta dos elementos da marca em milhares de peças diferentes.

Leia também: IA no design: Pesquisa revela o futuro da profissão no Brasil

O objetivo não estava relacionado à criação automática de campanhas. A iniciativa buscava garantir qualidade, coerência e aderência às diretrizes visuais em uma escala praticamente impossível de ser supervisionada manualmente.

O papel da criatividade humana

Apesar do protagonismo da tecnologia, um aspecto ficou evidente na estratégia da Coca-Cola: As decisões criativas continuam sob responsabilidade das pessoas. Segundo Abreu, a visão estratégica, direcionamento criativo e avaliação de qualidade permanecem sendo atribuições humanas.

A inteligência artificial contribui para acelerar processos, reduzir inconsistências e ampliar a capacidade operacional das equipes. Ainda assim, conceitos, narrativas e julgamentos estéticos dependem da experiência, sensibilidade e repertório dos profissionais envolvidos.

Essa percepção reflete uma visão cada vez mais presente em organizações que adotam IA de forma estruturada.

As ferramentas vão continuar mudando, mas a criatividade continua sendo profundamente humana.

Rapha Abreu, vice-presidente global de Design da Coca-Cola
Como a Coca-Cola está usando inteligência artificial para reforçar o branding

O valor da tecnologia aumenta quando ela fortalece capacidades humanas já existentes. Ferramentas podem executar tarefas complexas com velocidade impressionante, mas continuam dependentes da intenção e dos critérios definidos por quem as utiliza. No caso da Coca-Cola, a inteligência artificial funciona como uma extensão do sistema criativo construído ao longo de décadas.

Outro tema relevante abordado durante a palestra e que faz parte da relação entre pessoas e tecnologia foi a questão da ética no desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial. Abreu explicou que a escolha da Adobe como parceira esteve relacionada não apenas às capacidades técnicas da empresa, mas também à forma como seus modelos são treinados e operados de forma ética.

O uso de conteúdos licenciados e autorizados foi apontado como um aspecto importante para garantir segurança jurídica e respeito aos direitos autorais. Em um dos exemplos apresentados, a marca utiliza fotografias produzidas por profissionais como ponto de partida para criar variações adaptadas a diferentes mercados. As pessoas retratadas existem de fato e participam do processo mediante contratação formal, permitindo a criação de versões digitais autorizadas de sua imagem (conhecido como “clones digitais”).

O que outras empresas podem aprender?

Embora poucos negócios possuam a dimensão global da Coca-Cola, os princípios apresentados durante a palestra possuem aplicação muito mais ampla.

O primeiro aprendizado está relacionado à importância da consistência. Marcas fortes raramente são construídas a partir de mudanças constantes de identidade. Elas se fortalecem por meio da repetição estratégica de elementos reconhecíveis.

Outro ponto importante envolve a adoção de tecnologia. Empresas que tratam IA apenas como ferramenta de redução de custos tendem a limitar seu potencial. Organizações que a incorporam como instrumento de ampliação da criatividade, da qualidade e da capacidade operacional costumam gerar resultados mais duradouros.

Também fica evidente que inovação não significa abandonar aquilo que já funciona. A Coca-Cola continua investindo em elementos visuais criados há décadas. A diferença está na forma como novas tecnologias ajudam a preservar e expandir esse legado em um contexto cada vez mais complexo.

Como a Coca-Cola está usando inteligência artificial para reforçar o branding

Por fim, Rapha Abreu fez uma observação que ajuda a contextualizar o momento atual da inteligência artificial.

Ao longo da história, artistas e designers sempre trabalharam com as ferramentas disponíveis em sua época. Dos pigmentos utilizados nas cavernas à fotografia, dos computadores aos softwares de criação digital, cada inovação ampliou possibilidades e transformou processos. A inteligência artificial representa mais um capítulo dessa trajetória.

Seu impacto certamente será profundo. Ainda assim, a essência da criatividade continua ligada à capacidade humana de imaginar, interpretar contextos, atribuir significado e criar conexões emocionais.

A experiência apresentada pela Coca-Cola sugere que o futuro do design será construído por profissionais que souberem combinar essas capacidades com o potencial das novas tecnologias.

Mais do que uma disputa entre humanos e máquinas, o cenário aponta para uma relação de colaboração. E as organizações que compreenderem essa dinâmica terão melhores condições de construir marcas relevantes em um mundo cada vez mais conectado, complexo e acelerado.



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